A Oração Sacramental

Richard J. Foster

A oração sacramental é a oração da encarnação. Deus, em sua imensa sabedoria, preferiu compartilhar sua vida conosco por meio de realidades perceptíveis. Este é um grande mistério. Deus, que é puro Espírito e completamente livre de toda limitação criada, curva-se à nossa fraqueza e se revela a nos por meio do material e do visível. O Filho eterno vira uma criança numa manjedoura. O pão e o vinho são investidos com poder sacramental. Diante de tais maravilhas, nós nos prostramos.

Com o decorrer dos séculos, uma infeliz e, em minha opinião, desnecessária divisão teve lugar entre os cristãos. De um lado, estão os que enfatizam a liturgia, o sacramento e a oração decorada. Do outro, estão os que enfatizam a intimidade, a informalidade e a oração espontânea. Cada um dos dois grupos olha para o outro com piedosa condescendência.

É aqui que precisamos da santa conjunção “e”. Não precisamos ser forçados a escolher entre um grupo e outro. Ambos são inspirados pelo mesmo Espírito. Podemos ser levados à santa reverência pela riqueza e profundidade de uma liturgia bem organizada e também ser conduzidos a maravilhas impressionantes por meio do aconchego e da intimidade da adoração espontânea. Nossa espiritualidade pode abraçar ambas as coisas.

Embora se tenham passado vários anos, lembro-me muito bem de minha experiência com o “cristianismo sem religião” — um conceito popular inspirado pelos escritos de Dietrich Bonhoeffer, quando ele estava na prisão. Minha experiência foi a seguinte: eu estava tentando passar três meses em contínua comunhão com Deus, sem nenhum “auxílio” externo — sem Bíblia, sem liturgia, sem Santa Ceia, sem pregação, sem cultos, sem tempo reservado para a oração, sem nada. Deus foi bondoso para comigo durante aqueles noventa dias, mas de longe a coisa mais importante que aprendi foi o quanto preciso desses “auxílios” para me manter no Centro divino. Descobri que padrões regulares de devoção formam uma espécie de estrutura esquelética, na qual posso inserir os músculos e tecidos da oração incessante. Sem essa estrutura, os anseios interiores de meu coração não serão saciados. Esses padrões regulares, comumente chamados “rituais”, são meios de graça ordenados por Deus.

UM LIVRO DE RITUAIS

O que eu não sabia na época de meu pequeno experimento — mas imagino que você já saiba — é que a Bíblia está repleta de rituais, liturgias e cerimônias de todo tipo. Tenho certeza de que é desnecessário fazê-lo lembrar-se dos detalhes das leis cerimoniais do tabernáculo, do sacerdócio dos levitas e dos rituais do templo. Os salmos são ricos em ritos sacramentais e em liturgias do templo. Por serem utilizados com frequência nos encontros de adoração, os títulos de muitos deles — frases que hoje achamos difíceis de entender — são na verdade, orientações para os músicos do templo. “Aleluia” no Saltério, é uma aclamação litúrgica que significa “louve a Deus!”. Grande número de salmos são orações escritas para uso da comunidade de adoradores.

Com certeza, Jesus participou da vida litúrgica de seu povo quando ainda era bem jovem. Ele foi à sinagoga no sábado “como era seu costume” (Lucas 4.16). Sem dúvida, Jesus adotou as duas disciplinas dos fiéis judeus: recitar o Shemá duas vezes por dia e observar os três horários de oração: manhã, tarde e pôr do sol. O Shemá (“Ouça, ó Israel: O SENHOR o nosso Deus, é o único SENHOR”) era (e ainda é) uma confissão de fé (Deuteronômio 6.4). A cada hora de oração, um hino, a Tefilá, era entoado. Consistia em certo número de bênçãos — 18, no início do século I.

The Bible Project. Com legenda em português.

As epístolas do Novo Testamento contém muitos hinos e confissões que sem dúvida eram usados na vibrante adoração da prístina comunidade cristã. Quase podemos ouvir o louvor deles: “Ao Rei eterno, o Deus único, mortal e invisível, sejam honra e glória para todo o sempre. Amém”. Ou o testemunho confessional deles para Cristo: “…Deus foi manifestado em corpo, justificado no Espírito, visto pelos anjos, pregado entre as nações, crido no mundo, recebido na glória” (1 Timóteo 1.17; 3.16).

É fácil também detectar a espontaneidade dessa comunidade cheia de fé: “…falando entre si com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e louvando de coração ao Senhor, dando graças constantemente a Deus Pai por todas as coisas, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Efésios 5.19,20). Como eu já disse, esse é um lugar onde se pode dizer “ambos/e”, em vez de “nem/ou”.

A LIBERDADE DA ORAÇÃO LITÚRGICA

Embora nem toda forma de oração sacramental seja litúrgica, toda liturgia é sacramental. Permita-me comentar alguns dos benefícios desse tipo de oração mais estruturada.

Em primeiro lugar, a oração litúrgica ajuda-nos a articular os anseios do coração que clama por um gesto. Às vezes, é difícil encontrar palavras para dizer o que sentimos. Outras vezes, não temos vontade de orar, e as palavras da liturgia “vêm com tudo”, como se diz. Quem, por exemplo, poderá melhorar o conteúdo da “Confissão geral” do Livro de oração comum?

Andamos errantes e afastados dos teus caminhos como ovelhas perdidas, seguimos muito os planos e desejos de nosso coração, pecamos contra as santas leis, deixamos por fazer aquilo que deveríamos ter feito e temos feito aquilo que não deveríamos fazer. Mas tu, Deus, tem misericórdia de nós, poupa aqueles que são penitentes, de acordo com as tuas promessas declaradas para a humanidade em Cristo Jesus, nosso Senhor; e permita, o Pai misericordioso, pelo teu amor, que possamos viver futuramente uma vida devota, correta e sóbria, para a glória do santo Nome.

Em segundo lugar a oração litúrgica ajuda-nos a ter união com a “comunhão dos santos”. É um empreendimento muito maior do que nós somos. Mesmo que não concordemos com a oração aos santos, aceitamos a oração com os santos. Pense nisto: estamos elevando ao trono da graça as mesmas palavras que foram ditas por seguidores do Caminho através de muitas gerações. Que emoção é incluir nas orações dos santos o “próprio gorjeio”, como diz C. S. Lewis (em Oração — Cartas a Malcolm)!

Em terceiro lugar, a oração litúrgica ajuda-nos a combater a tentação do espetáculo, do entretenimento. Personalidades carismáticas são desnecessárias. Palavras inteligentes são inúteis. Ideias brilhantes são dispensáveis. Fazemos a oração que sempre foi feita. Concentramo-nos cada vez mais em Deus e cada vez menos no líder individual.

Em quarto lugar, a oração litúrgica ajuda-nos a resistir às tentações da religião pessoal. Para nós, humanos, é normal que façamos de nossas preocupações insignificantes o fardo de nossa oração. Não é errado orar por nossas necessidades, mas estas nunca devem ser o objetivo maior de nossa oração. Por meio da liturgia, somos trazidos de volta à vida comunitária; somos confrontados com a doutrina: somos forçados a ouvir o clamor do pobre e a contemplar a angústia das nações.

Em quinto lugar, a oração litúrgica ajuda-nos a evitar a familiaridade que produz irreverência. A intimidade da oração deve ser sempre contrabalanceada pela infinita distância entre a criatura e o Criador. Na Bíblia, é comum encontrar a experiência de pessoas que chegam à presença de Deus e têm sua face decaída como se estivessem mortas. A pompa e a formalidade da liturgia ajudam-nos a perceber que estamos na presença da verdadeira Realeza.

PREOCUPAÇÕES COMPREENSÍVEIS

Esse método de oração talvez lhe traga algumas preocupações. Isso é perfeitamente compreensível. De uma forma ou de outra, já tive todas as preocupações e continuo tendo um pouco delas que com frequência se manifestam com respeito à oração sacramental.

Uma dessas preocupações é com a monotonia de orações decoradas e com as liturgias. Talvez você já tenha dito ou ouvido algo como: “Ah, você está apenas fingindo. Está tudo escrito aí. Na realidade, você não está pensando no que diz na oração”.

Em tese, a alegação é correta, mas a liturgia está longe de ser um empecilho. Vejo isso principalmente como uma qualidade. Um dos grandes valores da oração litúrgica é precisamente não ter de pensar. Se quando estou escrevendo fico preocupado com vírgulas e conjugação de verbos, é porque ainda estou aprendendo escrever. O mesmo acontece com a oração. Quando recito as palavras da “Oração matutina” — “Ó Deus, vem em meu auxílio. Senhor, apressa te em ajudar-me” — , não preciso pensar em como vou expressar aquilo de que preciso. Em vez disso, estou livre chegar à profundeza de minha necessidade, assim como à realidade das mais profundas fontes de Deus.

Outra preocupação está relacionada à aplicabilidade. As palavras da liturgia são arcaicas. A litania parece fora de moda e sem relação com o mundo moderno.

Mais uma vez, a suposta desvantagem é uma virtude. A exigência de aplicabilidade é uma tentação do Diabo que precisa ser combatida. As liturgias foram feitas para conservar o que há de melhor na devoção cristã: dessa forma, muitas vezes ela nos livra dos modismos. É claro que elas podem ser alteradas com as mudanças na linguagem, mas espero que isso não aconteça rápido demais. Acho muito difícil que hoje alguém tenha capacidade para produzir, na Igreja, algo parecido com, digamos, o Livro de oração comum. Além disso, como C. S. Lewis observa, “a missão entregue a Pedro foi: ‘Alimente minhas ovelhas’, e não ‘Faça experimento em minhas cobaias’ (em Oração — Cartas a Malcolm).

Outra questão é: as formas de oração litúrgicas serem as “vãs repetições” que Jesus critica tão severamente (Mateus 6.7, ARC). É uma preocupação legítima. Infelizmente, descobri que muitas vezes é exatamente isso o que acontece. Nosso prazer pelo bom gosto literário pode facilmente se tornar um talismã. A beleza e a precisão do culto de adoração podem suplantar os anseios por Deus.

Isso, é claro, não significa que “rude” e “espiritual” sejam aliados, mas devemos estar cientes da idolatria da sofisticação. Podemos facilmente orar “sempre repetindo a mesma coisa, como a Bíblia diz, sem aproveitar a “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Mateus 6.7, Romanos 14.17).

Farei menção agora à última preocupação: o medo de fazer com que Jesus se sinta “prisioneiro do tabernáculo”, como os pietistas costumavam dizer. Mais uma vez, quero afirmar que essa preocupação é compreensível. Esquecemos facilmente a importância dos ensinamentos de Jesus, quando ele diz: “Deus é espírito, e é necessário que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade” João 4.24). Facilmente caímos na dicotomia do sagrado/secular. Pensamos ser possível frear o Espírito, que sempre sopra onde quer.

Contudo, a preocupação não deve nos impedir de reconhecer os caminhos da graça de Deus ao nosso coração e à nossa vida. A confissão de que o mundo é sacramental não nega o fato de Deus ordenar determinados sacramentos como instrumentos de sua misericórdia.

Jonathan Edwards diz que Deus é um Deus de meios. Edwards está certo. Parte de nosso crescimento espiritual vem da compreensão e do ingresso nesses “meios de graça”.


Richard J. Foster é autor renomado de vários best-sellers, teólogo, professor na Friends University e pastor da Evangelical Friends Churches. É também fundador da RENOVARE, uma organização cristã voltada para a renovação da igreja. Mora em Denver, Colorado, EUA.

Oração: o refúgio da alma. São Paulo, Editora Vida, 2008, pp. 151–157.

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